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Sabático
- Uma parada na vida
Esses profissionais interroperam suas carreiras no melhor
momento para viver a experiência de um período
sabático
A primeira vez em que Herbert Steinberg, dono da Mesa Corporate
Governance, consultoria de São Paulo, ouviu falar em
período sabático foi em 1986. Na época,
ele era diretor de RH da McDonalds. No final de uma viagem
corriqueira de negócios, Steinberg quis cumprimentar
um alto executivo da companhia. E deu com a porta do escritório
fechada. “Ele só estará de volta daqui
a seis meses”, disse a secretária. “Está
em período sabático.” Como? Steinberg
não sabia o que pensar. Primeiro, porque nunca tinha
ouvido falar em sabático fora dos livros sagrados.
Segundo, porque nem sonhava que esse era um tipo de comportamento
em vigor no mundo corporativo. Mas era. E há bem mais
tempo que ele podia imaginar. “Aquele exemplo de um
alto executivo parar tudo para viajar ficou martelando na
minha cabeça durante anos”, conta Steinberg que
só em 1999 criou coragem e interrompeu tudo que estava
fazendo para percorrer os 800 quilômetros do caminho
de Santiago de Compostela, na Espanha.
O termo sabático tem origem, de fato, nos livros sagrados.
A palavra vem do hebraico shabbath e significa repouso. Assim
é conhecido o recolhimento semanal dos judeus. No mundo
corporativo, o uso da expressão sabático pode
até ser recente, mas o conceito já é
antigo. A idéia é a mesma da licença
prêmio do serviço público, por exemplo,
que garante que funcionários de organismos estaduais
e federais com atuação voltada ao atendimento
público (como professores, médicos, carteiros,
etc.) tenham até três meses de folga a cada cinco
anos de trabalho assíduo (desde que tenham cumprido
suas metas).
No mundo real das empresas, licença (remunerada ou
não) tem se tornado algo cada vez mais comum. A percepção
de que férias nem sempre são suficientes e que
uma parada na carreira ajuda a renovar o repertório,
vem ganhando força desde o início da década
passada. As precursoras foram importantes universidades americanas
(como Harvard) que passaram a oferecer o benefício
como forma de atrair professores de escolas européias,
já acostumados com a uma parada periódica para
escrever livros ou fazer pesquisas. Na lista dos grupos empresariais
que aderiram ao sabático como política de RH,
inclusive no Brasil, estão a American Express, que
concede licença não remunerada para projetos
pessoais, e a McDonalds onde, a cada dez anos de casa, o funcionário
tem direito a férias prolongadas de sessenta dias.
“Nem o profissional, nem a corporação
têm que ter medo de uma parada sabática”,
diz Laís Passarelli, da Passarelli Consultores, empresa
de recursos humanos de São Paulo. “Esses períodos
trazem ânimo novo e a recarga psicológica que
eles proporcionam superam os aprendizados de quem aproveita
o tempo para fazer um curso.”
Para Steinberg, a parada de pouco mais de 30 dias como um
peregrino longe de casa, da família e dos amigos (ele
viajou sozinho para a Espanha) modificou sua vida pessoal
e profissional. “Quando anunciei aos colegas e à
família que estava de partida para uma viagem solitária,
muita gente pensou que eu estava louco”, diz o empresário.
“Vivi momentos de profunda reflexão e uma das
primeiras decisões que tomei na volta foi desfazer
minha sociedade e tocar sozinho um novo negócio.”
Steinberg, que hoje tem 48 anos, também escreveu um
livro e criou um site para incentivar outros profissionais
a pisar no freio. Em 2002, ele fez ainda outra parada e viajou,
mais uma vez sozinho, para Machu Pichu, no Peru. “As
minhas duas paradas ocorreram em períodos de transição.”
Renovação
É um erro comum achar que período sabático
significa ficar de pernas para o ar, sem pensar em nada e
bem longe de problemas. Não é bem assim. Três
aspectos diferenciam o sabático de umas férias.
Primeiro, é importante que a parada seja motivada por
uma nova experimentação, seja como uma renovação
profissional ou pura curiosidade. Fazer um curso, mesmo que
numa área sem nenhuma ligação com a carreira,
é um ótimo motivo. Outra característica
do sabático é que ele tem início e fim
decididos desde o planejamento. Sair sem data para voltar
descaracteriza o aspecto de comprometimento. Outro diferencial
de umas férias é que, no sabático, a
experiência precisa influenciar sua vida depois, seja
profissional ou pessoalmente. Viajar pensando apenas em não
fazer nada, desligar a cabeça, serve bem para umas
férias ou feriado prolongado.
O engenheiro Ricardo Raóul, de 36 anos, já
viveu dois longos períodos sabáticos. O primeiro
foi em 1997. Ele morou seis meses em Boston, fez um curso
de administração em Harvard por três meses
e, nos outros três, viajou pelos Estados Unidos. Funcionário
há oito anos da Semco, grupo empresarial de São
Paulo, Raóul conseguiu uma licença remunerada
da empresa durante os seis meses que esteve fora. Voltou,
cresceu profissionalmente dentro da corporação,
trocou a área financeira pela de novos negócios
e, em 2001, interrompeu novamente sua carreira para fazer
um mestrado em Stanford, em São Francisco. Desta vez,
ele viajou com a esposa e a filha de dois anos e esteve fora
por um ano e meio. Raóul conseguiu uma licença
não remunerada e voltou, no ano passado, como diretor
da Semco Venture, divisão de novos negócios
do grupo.
“O mais legal é que aproveitei minha segunda
parada para desenvolver um projeto pessoal de escrever um
livro”, conta Raóul. “Sempre recebi o apoio
da empresa e, inclusive, como não tive remuneração
durante meu mestrado, tive parte do custo do curso reembolsado.”
A Semco mantém até hoje um programa de RH conhecido
pelos corredores como “licença de hepatite”.
A idéia da equipe de recursos humanos é dar
espaço para aqueles que dizem nunca ter tempo para
um sabático. O departamento pessoal aceita pedidos
de licença de três a quatro meses, como se fosse
para curar uma hepatite, mesmo que seja para realizar um projeto
pessoal. Raóul, por exemplo, pensa em repetir a experiência.
“Gostaria de fazer uma parada de três meses a
cada cinco anos de trabalho”, diz. “Isso ajuda
a repensar todas aquelas coisas que decidimos por inércia.”
Mudanças em vista
Quando o chileno Alex Pinedo, de 42 anos, decidiu voltar
a estudar depois de quase 20 anos de carreira, o que ele queria
mesmo era deixar que “o vento entrasse na cabeça”.
Workaholic assumido, Pinedo foi demitido em 2002. Antes mesmo
que ele procurasse, surgiram boas propostas. Mas ao invés
de engatar de imediato num novo emprego, ele achou que era
momento de parar, pela primeira vez em duas décadas
de trabalho. Os primeiros 20 dias foram de lazer, com passeios
entre Trancoso, na Bahia, e Nova York. Depois, o administrador
de empresas foi para França estudar na Insead, uma
das melhores escolas de negócios da Europa. “Foi
um curso caro e muita gente achou que eu estava enlouquecendo
em gastar tanto sem a segurança de um emprego”,
conta. “Mas cada centavo que investi nesse projeto foi
compensado.” Pinedo voltou dois meses depois para o
Brasil e hoje é diretor de marketing da B4, holding
de investimento em internet com sede em São Paulo.
Ele aprendeu, durante seu sabático, bem mais do que
está nas apostilas do Insead. “Eu era muito voltado
para dentro da empresa. Hoje sou também voltado para
fora, considero o aspecto social no meu trabalho e sei que
para ser um bom pai, um bom amigo e um bom profissional, eu
preciso estar bem comigo mesmo.”
Para saber mais:
Sabático – Um Tempo para Crescer, Herbert Steinberg,
Editora Gente
www.sabatico.com.br
Por Marta Barbosa
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